Às vezes quando se sabe bem o que quer da vida andando por um caminho errado num dia qualquer, uma revelação acontece. Percebe-se que por mais que pareça tudo certo e fácil nada está perfeito e nem estará nunca. Isso acontece justamente porque aquele caminho errado que se pega propositalmente, faz parte das escolhas de uma pessoa com toda a sua brilhante complexidade. Com todos aqueles fios soltos que quase a enforcam quando faz um movimento brusco, mas que de repente apenas se enrolam em nós escondidos atrás do reflexo perfeito nas vitrines espelhadas. Isso acontece àquela pessoa discretamente indomada. Aquela que sempre fica com o bagaço, que sempre pega os desafios, que rejeita o doce, que come o pão que o diabo amassou... e que o faz por livre e espontânea vontade. É a pessoa interessante que sofre por opção. Por que? Somente porque não cogita a possibilidade de ser simples.
domingo, 12 de dezembro de 2010
sábado, 18 de setembro de 2010
Um tchau pras crianças
Tudo parece que vai ser pra sempre, mas então as coisas mudam e machucam como quando a gente rala os joelhos brincando de pega pega. Alguns sentem mais dor e fazem um pouco mais de manha, outros nem se importam e continuam correndo, mas no fundo todos sentem a dorzinha chata até o machucado secar e a casquinha sair. E então nem se lembram mais daquele ralado porque a delícia de ser criança está na velocidade com a qual as coisas acontecem. De qualquer forma minha saudade não é de criança e continuará forte mesmo depois que a casquinha do machucado no joelho cair e não houver mais nenhum resto de dor.
A mudança que vocês crianças do Curumim provocaram em mim vai permanecer mesmo depois que a lembrança da tia Ju ficar bem fraquinha. Resolvi escrever um texto de despedida pra vocês aqui no meu blog pra mostrar que gostei muito de tê-los conhecido.
Um grande abraço e lembrem de mim quando fizerem as minhas brincadeiras favoritas: queimada e a dança do xepe-xepe.
Um tcahu pras crianças crescidas
Um nome escrito num documento demorado e então a vida dá cambalhotas. Daí vem a decisão obrigatória de deixar toda aquela memória doce guardada no vão de uma despedida singela. O texto de homenagem não consegue ser bem articulado nem tão pouco coerente com o tamanho da alegria dolorida. E mesmo agora as frases são justapostas de forma quase aleatória representando lindamente a confusão dos sentimentos todos. As palavras são úmidas assim como os rostos ruborizados e o abraço apertado que não foi dado durante todo o tempo de convivência diária como se tivesse sido guardado só para que a raridade lhe atribuísse mais calor. Tudo úmido, salgado e difícil de aceitar. E ainda assim não conseguiu ter sabor de tristeza. Foi uma despedida satisfeita e feliz, doída a ponto de corroer o coração, mas ainda assim feliz. Atribuo ao meu amor pelas grandes e pequenas pessoas envolvidas nisso tudo a culpa por eu ter sentido a felicidade mais difícil da minha vida. Em setembro de 2010 descobri que felicidade pode doer e que amor tem mais formas do que eu podia imaginar. Até logo e obrigada por tudo, meus amigos!
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Não é
Tão depressa como um diabo fugindo da cruz. Não quis nada, nem eu quis. Ainda assim não era motivo pra não dizer um bom dia de despedida. Não que me importasse muito essas palavras em um dia que nada tinha de bom. O fato é que não foi nada do que eu esperava, nada do que merecia. Foi na surdina protegido pela distância dos meus pensamentos.
Outro dia me volta como se nem tivesse chegado e partido antes. Me tratando como uma nova amizade lavada e livre de verdades. Não é assim que a banda toca filho de uma... (não falo para que não suje a poesia). O que eu digo nem merece entrar pelos seus ouvidos desatentos. Minha saliva é rara e minhas palavras muito bem escolhidas para que sejam gastas com um pedaço de nada que é você. Ainda ousa me dizer que está feliz da vida como se me interessasse seu estado de graça.
Veio aqui para me dizer que está bem e que o resto é culpa minha? Pois afirmo que não é. Nem você é feliz e nem um grão de culpa é meu. Quando em um dia cinza abrir os olhos e levantar-se vazio da cama que não é minha, verá que não poderia ter achado felicidade longe da tua cruz, diabo. Verá que a culpa dessa ruína pertence só a ti. E que a infelicidade já não é minha companhia.
domingo, 6 de junho de 2010
Ausência de botequim
Naquelas esquinas de álcool e café
Sem pressa de voltar mesmo que voltar a pé
Nas tardes e noites vadias com luz
De vida pausada a vida que vem e seduz
E faz querer pra sempre
Que os rostos, sorrisos e vozes amigas estejam presentes
Na hora da ida promessas de volta, sementes
Ainda que não mude, ainda que não pare o dia
Nas tardes e noites vadias é o que a gente sente
Mas a procura por certezas só me faz distante
A cada curva, cada milha um pouco mais me perco
Antes do raso fui apoio, fui amor, amante
Agora água limpa e clara distorce o desejo
E vejo um sonho fácil em mim
Só quero um copo e um corpo, manequim
Naqueles fracassos doídos e certos que vêm
Invadem sem hora marcada a alma, só vêm
Pra um grande castelo de cartas, vêm ventania
E fazem querer que esvaeça molhado e quieto o dia
E se os rostos, sorrisos e vozes amigas não são tão presentes
Procuro nas cartas de antes manchadas, à tinta, bilhetes
A agenda renasce ao abrir a gaveta na estante
Só números velhos ex-decorados nos dedos num tempo distante
Lembrando os nomes e os sonhos perdidos, carente
E porque ninguém mudou e ninguém parou o dia
De feitos fracassos desejo por gente
Saudade rígida, ferida
Nas tardes e noites vazias é o que a gente sente
E a procura da grandeza é o que me faz pequeno
Todos os dias durmo cedo pra não ter saída
Quando embaraço meus cabelos na frente do espelho
É sempre em busca de uma face que ficou perdida
E olhando o jogo sério em mim
Desejo som, um beijo e botequim
Sem pressa de voltar mesmo que voltar a pé
Nas tardes e noites vadias com luz
De vida pausada a vida que vem e seduz
E faz querer pra sempre
Que os rostos, sorrisos e vozes amigas estejam presentes
Na hora da ida promessas de volta, sementes
Ainda que não mude, ainda que não pare o dia
Nas tardes e noites vadias é o que a gente sente
Mas a procura por certezas só me faz distante
A cada curva, cada milha um pouco mais me perco
Antes do raso fui apoio, fui amor, amante
Agora água limpa e clara distorce o desejo
E vejo um sonho fácil em mim
Só quero um copo e um corpo, manequim
Naqueles fracassos doídos e certos que vêm
Invadem sem hora marcada a alma, só vêm
Pra um grande castelo de cartas, vêm ventania
E fazem querer que esvaeça molhado e quieto o dia
E se os rostos, sorrisos e vozes amigas não são tão presentes
Procuro nas cartas de antes manchadas, à tinta, bilhetes
A agenda renasce ao abrir a gaveta na estante
Só números velhos ex-decorados nos dedos num tempo distante
Lembrando os nomes e os sonhos perdidos, carente
E porque ninguém mudou e ninguém parou o dia
De feitos fracassos desejo por gente
Saudade rígida, ferida
Nas tardes e noites vazias é o que a gente sente
E a procura da grandeza é o que me faz pequeno
Todos os dias durmo cedo pra não ter saída
Quando embaraço meus cabelos na frente do espelho
É sempre em busca de uma face que ficou perdida
E olhando o jogo sério em mim
Desejo som, um beijo e botequim
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Cachecol e manteiga de cacau
Em uma manhã tardia em que, como todas as de inverno, o sol já devia aquecer as almas, saiu pela cidade suja. Aquele som urbano emudecido pela trilha sonora triste dos fones de ouvido só a fazia ser menos parte do mundo. Para não ser alcançada pelo mundo do qual queria fugir andava depressa, embora não estivesse atrasada, sem, contudo, deixar de notar o ar frio que lhe cortava a face. Era deslocada, mas a epiderme amarrava-a impiedosamente a tudo aquilo que não a acolhia.
Uma batalha quase ganha pela vontade de não estar. Escorregou dos sons de realidade, escapuliu das cores de gente com a ajuda dos óculos escuros e do olhar perdido no horizonte inexistente, esquivou-se dos odores vivos devido à coriza, mas não fugiu da frieza seca de todo o entorno. A difícil tarefa de ser impunha-se a cada passo e a cada informação pedida por estranhos na rua. Aparecia no toque involuntário na mão do cobrador do ônibus enquanto entregava-lhe as moedas, na trombada da criança alegre contra suas pernas e na espera velada pelo telefonema que não vinha. Sobretudo aparecia no maldito ar frio que lhe cortava a face. Aquele ar que mudava o humor e trazia pensamentos indesejados. Essa foi a batalha quase ganha. Quase.
Naquele percurso na manhã tardia, clara e gélida, finalmente percebeu. Sua pele ressecada e áspera não permitia que escorregasse da tarefa fatídica. Então sem achar melhor maneira de aquecer a pele e umedecer os lábios calados, contornou o pescoço com mais uma volta de cachecol, sacou do bolso do casaco um bastão de manteiga de cacau e espalhou cuidadosamente na boca bem contornada e repleta de ranhuras. E seguiu mais alguns metros até chegar ao lugar que adiara sua vontade de desistir de ser.
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Saudades do mercúrio-cromo
Correu, pulou, caiu. Acesa como um dia de verão sem nuvens e não ficou arrebatada. Um choramingo manhoso de cinco minutos e pronto, lá estava novamente serelepe.
Assim como se realmente fosse natural o tombo (e deveria ser) e fácil o recomeço(naturalmente não é). Seguiu, determinada e destemida, desbravando sem cicatrizes escuras nem olheiras profundas todo aquele universo encantador. O tombo já não importava e nem tão pouco a escoriação no cotovelo esquerdo que fora curada com assopros carinhosos. Importava a nova melhor amiga e os novos desafios na matemática e na amarelinha. Importava cada linha bem lida de um texto no quadro negro, o copo de leite quente após o banho, a promessa do dia melhor que nasceria.
Assim correu, pulou, caiu e levantou com facilidade, muitas vezes. Até o dia em que os tombos não causavam mais escoriações nos membros. Em que não causavam danos visíveis o bastante para que o assopro refrescasse. Então os choramingos passaram a durar mais tempo, ocultos, e as olheiras ficaram escuras e as cicatrizes profundas.
sexta-feira, 26 de março de 2010
Sobre a saudade
A saudade não precisa que algo tenha sido bom para existir. A saudade só precisa de um lembrete. Um perfume em terceiros, uma música ruim ou até mesmo um bilhete na geladeira para os saudosos mais desatentos.
Aquele par de sandálias erradas, ali, como se estivessem jogando a realidade na cara. Como se dissessem que rastros são inevitáveis e que a felicidade vai, mas seus objetos ficam. Ali um pé direito errado, azul quarenta e dois. Uma prova de você para que ninguém me convença que não houve.
Sobre a visão
A visão é estado de espírito. É mais do que físico. Na imensidão da luz do dia, mesmo em branco translúcido pode ocorrer confusão. Equívoco confiar na tradução do que percebe. Equivocou-se. E como se fosse claro, fácil e bonito, amou. Visão turva. Os olhos abriram-se firmes e a alegria pulverizada, delicadamente, rarefez toda aquela beleza. Logo viu nítido:viver poesia faz mal à vista, enquanto vive. Alucina. Então sua alma só pôde desejar uma cegueira permanente.
terça-feira, 16 de março de 2010
A breve história de uma formiga obcecada
Andou incansável desviando-se daqueles galhos desnudos que lhe atrapalhavam o caminho. Andava, andava, andava e nunca que chegava àqueles morros bonitos (que na verdade eram nuvens refletindo o sol que esvaecia). No percurso deixou de participar de uma festa, um recital, um jantar dançante e três funerais. Quando parou e percebeu que não importava o quanto andasse as montanhas bonitas ainda permaneceriam longe, apesar da vontade incontrolável de alcançá-las, sentou-se exausta e com olhar frustrado fitou tudo a sua volta. Viu-se num lugar completamente desconhecido repleto de vidas diferentes das de outrora e então se deu conta de que não pertencia mais – Não pertencia mais a que? – Se perguntou verdadeiramente confusa. E então percebeu que não tinha lembranças do caminho todo (que não era curto) nem sequer para ser capaz de percorrê-lo ao contrário, suas lembranças limitavam-se ao que quase atrapalhou a busca pelas montanhas. Lembrou-se da recusa irada de alguns convites que surgiram – Havia uma festa. Sim! E um recital... talvez alguns funerais. Mas quem se importa? Nem gosto de festas, acho que me causam enxaqueca. E recital? Nem era tão afinado assim o músico. Ah, funerais... qualquer um sentir-se-ia feliz por escapar deles. Mas quem será que morreu? – A cabeça começou a doer e notou que o coração batia num ritmo diferente. Por mais esforço que fizesse não se lembrava das coisas que se passaram nesses anos todos. Só lembrava-se da busca incessante que poderia ter tido sucesso, ou ao menos histórias no segundo plano. Agora era tudo o que tinha para embalar suas noites desaceleradas de velhice: a falta das montanhas nuvens e do caminho que não levou a elas.
quinta-feira, 11 de março de 2010
Não fim
Ela surgiu violenta como quem vem, com pedras na mão, iniciar um diálogo e trouxe consigo uma escuridão serena. Seus olhos com uma profundidade estranha, que dominavam o ambiente e consumiam a pouca luz que parecia se refletir na epiderme clara, fitaram decididamente um canto da sala cujo belo design retrô permanecia oculto na penumbra. Assim que já não era foco dos olhares da multidão criada em sua mente para fazer a entrada parecer mais triunfal, arrumou a franja longa que o vento do caminhar apressado havia grudado nos lábios, ajoelhou-se encostando o ombro direito no sofá com um pudor charmoso, encostou os cílios superiores lambuzados de rímel nas olheiras já escuras para completar o visual deprimente que se formava inevitavelmente e começou a falar com palavras bem colocadas:
- E agora, como ficamos? Agora que perdi horas diante do dicionário caçando sinônimos fortes pra dizer tudo o que devia? Para traduzir o que a carne me corroia? Logo agora que deixei de ser eu e só?
Um longo intervalo de silêncio quase ensurdecedor permitiu que a moça umedecesse os lábios. E então prosseguiu, sem vacilar:
- E então o que me diz, não para que me console, mas para que me volte a cor da face? Seja no mínimo digno para ceder-me palavras e não permitir que só meu timbre viole esse vazio que se formou aqui. Espero com uma paciência limitada sua sugestão para o que será agora. Se é que será.
Um silêncio ainda mais agudo se espalhou durante alguns segundos.
- Não exijo nada de alguém que não possa exigir de mim mesma. Não exijo de você que tenha a solução, que continue sendo parte minha, apenas que não me mate com essa ausência inteira. Quero tudo por inteiro, menos isso. Não suporto que o fim seja assim frio, assim vácuo. Nem o frio da morte é frio, além da temperatura do corpo que morre. O que quero? – perguntou como se repetisse a fala de seu interlocutor – Quero um fim memorável, com calor, com toque, com franqueza e ponto final. E é só. É capaz disso?
Levantou-se com uma elegância que parecia ensaiada e esticando o braço alcançou o interruptor que fez a luz rara se triplicar num segundo. Enxugou o borrão preto debaixo dos olhos parecendo sentir pena de si, caminhou até o espelho do corredor e então se olhando nos olhos disse furiosa:
- Imbecil!
Recompôs-se e com a mesma elegância de sempre pegou a bolsa grande e saiu batendo a porta. Cumprimentou educadamente os conhecidos que passavam em seu caminho usando grandes óculos de sol para esconder a expressão desagradável que estava constituída após aquele breve e infinito monólogo na sala de estar. Seguiu em sua rotina com a face ruborizada de verão fingindo esquecer os textos arrebatadores que ensaiava nos dias mais inspirados para quebrar grilhões com histórias decadentes escritas até a metade. Mas aquilo era sempre tão bem guardado que não conseguia esquecer a falta do fim e ensaiava sempre uma conclusão mais coerente do que a outra. E sempre surgia um impulso de se bater na cara quando pensava nos ensaios nunca apresentados.
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segunda-feira, 8 de março de 2010
Um texto nostálgico
Naqueles dias de verão em que a vida parece dar piruetas, em que as pessoas parecem mais interessantes e em que os sonhos tomam a frente nas atitudes, naqueles dias achamos que somos os donos do mundo. Encaramos a vida como crianças que acabam de serem aceitas numa brincadeira de gente grande. Banhados de guache e embebidos numa euforia justificada agimos como os mais perfeitos e felizes idiotas. Acreditamos que tudo vai mudar, que num passe de mágica nos tornaremos grandes, fortes, intelectuais e descolados. Alguns passam a usar roupas rasgadas e a pintar cartazes com tinta barata numa tentativa nostálgica de viver os tempos poéticos da ditadura militar. Outros parecem continuar no colegial, disparando perguntas bobas, defendendo opiniões ingênuas e fazendo novos melhores amigos. Não julgo os revolucionários ricos de havaianas nem os reacionários oriundos de colégios públicos. Tudo não passa de um período conturbado até que o buraco realidade apareça devastador à frente do próximo passo. Em algum momento todos esses descobrem que apesar de seus sonhos bonitos, de suas convicções mais sinceras e de sua vontade de continuar acreditando naquilo que acreditava nos melhores dias de verão, terão que aceitar que a visão mais madura dos conhecimentos e da vida nem sempre é a mais desejável. Terão que desintegrar o grande grupo unido que no início caminhava de mãos dadas pelo campus, terão que levar os livros mais a sério e o pior de tudo: terão que admitir que aquela opinião que defendiam com tanta veemência estava equivocada e que aquilo que seus arquiinimigos diziam talvez realmente tivesse sentido. O verão que revela o resultado positivo do vestibular é para os nomes da lista o mais quente e arrebatador de todos os que sucederão. Não há sensação mais extasiante do que o momento de ingresso nesse mundo tão cheio de transformações. Sensação que com o passar dos anos tende a ser reduzida à uma esperança tímida que causa uma insônia, não mais envolvida por álcool e rock'n roll, mas banhada por um facho vindo da lâmpada amarela na cabeceira.
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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
São Paulo... ah a capital
A cada visita a São Paulo entendo mais, lamento mais os motivos dos afogamentos no lixo. São Paulo cidade cinza, cidade cheia... cheia de tudo. Cheia de eventos, de cultura, de diversidade, de gente, de lixo, de carros, de ruas, de arte, de falta de educação. Está pra nascer gente mais mal educada do que os habitantes daquela terra cinza. São Paulo gigante que engole, que massacra, que entorpece. São Paulo mais de fedores do que de aromas que me faz desejar o meio do mato. É um monstro que me puxa pela magnitude e que me espanta, pela magnitude. São Paulo faz com que eu me sinta dispensável. São Paulo mostra que ninguém é peça fundamental de nada e que o ser humano é uma bosta que embosteia o mundo achando que está fazendo grande coisa. Cada visita a São Paulo escancara verdades. Verdades fazem sofrer. São Paulo linda, mentira boa... ah a capital! Capital que estapeia as faces dos que veem com o coração.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Ainda a tarde
As tardes sempre me causaram um certo fascínio que cresce na medida em que o sol morre, espontâneo e nem sempre notado (o fascínio e o sol). É aquele período em que o movimento é diferente. Movimento de gente saindo rumo aonde nem sempre sabe. Penso que o sair de algum lugar seja um ato renovador, empolgante, alegre. Não importa o destino nem tão pouco o caminho, tudo o que importa é o ato de sair. Quando saímos criamos uma esperança discreta de acontecimentos inesperados, ainda que a rotina esteja garantida. Quando vemos pessoas saindo imaginamos o caminho e o destino delas. Que podem estar indo encontrar amigos num bar charmoso no Cambuí, esperar a carona do namorado para irem juntos escolher um filme qualquer ou simplesmente estar indo para casa que já tem aroma do alho com cebola e o barulhinho da panela de pressão. Esse movimento de sair sempre acontece mais feliz nas tardes enquanto as portas de ferro descem, as crianças debandam das escolas e os carros demoram mais a andar. As pessoas se olham aliviadas de tarefa cumprida, com um olhar de cumplicidade coletiva. Os cachorros latem mais, as crianças brincam mais alto, os pássaros voam baixo e os risos quebram a aparência do dia que prometia morrer sisudo. Aquele céu que vai se tornando laranja e obriga as luzes a acenderem gradativamente, anuncia a noite glamurosa de conversas na sala de estar, na mesa do bar ou na calçada dos vizinhos. É um momento único, o momento do movimento bom. Nunca gostei de ter compromissos nas tardes, a menos que no ápice da transição estivesse saindo, estivesse no fluxo do movimento ouvindo a trilha sonora inventada. Anoitecer dentro é o auge da depressão. O cair da tarde é vastidão, foi feito pra ser mergulhado e invadir as almas com uma dinâmica espera pelo melhor que só às vezes chega.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Uma tarde azul
Enquanto mil e uma informações correm pelos cabeamentos, lá fora ainda existe. Perseguem-se uns aos outros dentro da rede infinita e lê-se aventuras e inutilidades de quem às vezes nem sabe quem. Indo no sentido da água corrente descobre-se que o mundo é pequeno, descobrem-se semelhanças, percebe-se os outros de forma duvidosa e formam-se laços quase desejáveis. Horas e horas sem notar. Alguns muitos gigabytes são trocados como figurinhas. Enquanto isso lá fora ainda há, por entre a fresta da janela que não se abre muito para não refletir luz no cristal, as coisas palpáveis ou não palpáveis mas que de qualquer forma não chegam por troca de dados. Há lá fora aquelas coisas que são bonitas e já manjadas pelos poetas como os pássaros cantando e as nuvens passeando pelo céu da tarde azul. Já é tarde e foi-se a tarde que não vi.
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