Naqueles dias de verão em que a vida parece dar piruetas, em que as pessoas parecem mais interessantes e em que os sonhos tomam a frente nas atitudes, naqueles dias achamos que somos os donos do mundo. Encaramos a vida como crianças que acabam de serem aceitas numa brincadeira de gente grande. Banhados de guache e embebidos numa euforia justificada agimos como os mais perfeitos e felizes idiotas. Acreditamos que tudo vai mudar, que num passe de mágica nos tornaremos grandes, fortes, intelectuais e descolados. Alguns passam a usar roupas rasgadas e a pintar cartazes com tinta barata numa tentativa nostálgica de viver os tempos poéticos da ditadura militar. Outros parecem continuar no colegial, disparando perguntas bobas, defendendo opiniões ingênuas e fazendo novos melhores amigos. Não julgo os revolucionários ricos de havaianas nem os reacionários oriundos de colégios públicos. Tudo não passa de um período conturbado até que o buraco realidade apareça devastador à frente do próximo passo. Em algum momento todos esses descobrem que apesar de seus sonhos bonitos, de suas convicções mais sinceras e de sua vontade de continuar acreditando naquilo que acreditava nos melhores dias de verão, terão que aceitar que a visão mais madura dos conhecimentos e da vida nem sempre é a mais desejável. Terão que desintegrar o grande grupo unido que no início caminhava de mãos dadas pelo campus, terão que levar os livros mais a sério e o pior de tudo: terão que admitir que aquela opinião que defendiam com tanta veemência estava equivocada e que aquilo que seus arquiinimigos diziam talvez realmente tivesse sentido. O verão que revela o resultado positivo do vestibular é para os nomes da lista o mais quente e arrebatador de todos os que sucederão. Não há sensação mais extasiante do que o momento de ingresso nesse mundo tão cheio de transformações. Sensação que com o passar dos anos tende a ser reduzida à uma esperança tímida que causa uma insônia, não mais envolvida por álcool e rock'n roll, mas banhada por um facho vindo da lâmpada amarela na cabeceira.
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