Andou incansável desviando-se daqueles galhos desnudos que lhe atrapalhavam o caminho. Andava, andava, andava e nunca que chegava àqueles morros bonitos (que na verdade eram nuvens refletindo o sol que esvaecia). No percurso deixou de participar de uma festa, um recital, um jantar dançante e três funerais. Quando parou e percebeu que não importava o quanto andasse as montanhas bonitas ainda permaneceriam longe, apesar da vontade incontrolável de alcançá-las, sentou-se exausta e com olhar frustrado fitou tudo a sua volta. Viu-se num lugar completamente desconhecido repleto de vidas diferentes das de outrora e então se deu conta de que não pertencia mais – Não pertencia mais a que? – Se perguntou verdadeiramente confusa. E então percebeu que não tinha lembranças do caminho todo (que não era curto) nem sequer para ser capaz de percorrê-lo ao contrário, suas lembranças limitavam-se ao que quase atrapalhou a busca pelas montanhas. Lembrou-se da recusa irada de alguns convites que surgiram – Havia uma festa. Sim! E um recital... talvez alguns funerais. Mas quem se importa? Nem gosto de festas, acho que me causam enxaqueca. E recital? Nem era tão afinado assim o músico. Ah, funerais... qualquer um sentir-se-ia feliz por escapar deles. Mas quem será que morreu? – A cabeça começou a doer e notou que o coração batia num ritmo diferente. Por mais esforço que fizesse não se lembrava das coisas que se passaram nesses anos todos. Só lembrava-se da busca incessante que poderia ter tido sucesso, ou ao menos histórias no segundo plano. Agora era tudo o que tinha para embalar suas noites desaceleradas de velhice: a falta das montanhas nuvens e do caminho que não levou a elas.
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