Ela surgiu violenta como quem vem, com pedras na mão, iniciar um diálogo e trouxe consigo uma escuridão serena. Seus olhos com uma profundidade estranha, que dominavam o ambiente e consumiam a pouca luz que parecia se refletir na epiderme clara, fitaram decididamente um canto da sala cujo belo design retrô permanecia oculto na penumbra. Assim que já não era foco dos olhares da multidão criada em sua mente para fazer a entrada parecer mais triunfal, arrumou a franja longa que o vento do caminhar apressado havia grudado nos lábios, ajoelhou-se encostando o ombro direito no sofá com um pudor charmoso, encostou os cílios superiores lambuzados de rímel nas olheiras já escuras para completar o visual deprimente que se formava inevitavelmente e começou a falar com palavras bem colocadas:
- E agora, como ficamos? Agora que perdi horas diante do dicionário caçando sinônimos fortes pra dizer tudo o que devia? Para traduzir o que a carne me corroia? Logo agora que deixei de ser eu e só?
Um longo intervalo de silêncio quase ensurdecedor permitiu que a moça umedecesse os lábios. E então prosseguiu, sem vacilar:
- E então o que me diz, não para que me console, mas para que me volte a cor da face? Seja no mínimo digno para ceder-me palavras e não permitir que só meu timbre viole esse vazio que se formou aqui. Espero com uma paciência limitada sua sugestão para o que será agora. Se é que será.
Um silêncio ainda mais agudo se espalhou durante alguns segundos.
- Não exijo nada de alguém que não possa exigir de mim mesma. Não exijo de você que tenha a solução, que continue sendo parte minha, apenas que não me mate com essa ausência inteira. Quero tudo por inteiro, menos isso. Não suporto que o fim seja assim frio, assim vácuo. Nem o frio da morte é frio, além da temperatura do corpo que morre. O que quero? – perguntou como se repetisse a fala de seu interlocutor – Quero um fim memorável, com calor, com toque, com franqueza e ponto final. E é só. É capaz disso?
Levantou-se com uma elegância que parecia ensaiada e esticando o braço alcançou o interruptor que fez a luz rara se triplicar num segundo. Enxugou o borrão preto debaixo dos olhos parecendo sentir pena de si, caminhou até o espelho do corredor e então se olhando nos olhos disse furiosa:
- Imbecil!
Recompôs-se e com a mesma elegância de sempre pegou a bolsa grande e saiu batendo a porta. Cumprimentou educadamente os conhecidos que passavam em seu caminho usando grandes óculos de sol para esconder a expressão desagradável que estava constituída após aquele breve e infinito monólogo na sala de estar. Seguiu em sua rotina com a face ruborizada de verão fingindo esquecer os textos arrebatadores que ensaiava nos dias mais inspirados para quebrar grilhões com histórias decadentes escritas até a metade. Mas aquilo era sempre tão bem guardado que não conseguia esquecer a falta do fim e ensaiava sempre uma conclusão mais coerente do que a outra. E sempre surgia um impulso de se bater na cara quando pensava nos ensaios nunca apresentados.
Não é coisa da sua amiga, não. É bom mesmo... suas imagens se transportam, não?
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