As tardes sempre me causaram um certo fascínio que cresce na medida em que o sol morre, espontâneo e nem sempre notado (o fascínio e o sol). É aquele período em que o movimento é diferente. Movimento de gente saindo rumo aonde nem sempre sabe. Penso que o sair de algum lugar seja um ato renovador, empolgante, alegre. Não importa o destino nem tão pouco o caminho, tudo o que importa é o ato de sair. Quando saímos criamos uma esperança discreta de acontecimentos inesperados, ainda que a rotina esteja garantida. Quando vemos pessoas saindo imaginamos o caminho e o destino delas. Que podem estar indo encontrar amigos num bar charmoso no Cambuí, esperar a carona do namorado para irem juntos escolher um filme qualquer ou simplesmente estar indo para casa que já tem aroma do alho com cebola e o barulhinho da panela de pressão. Esse movimento de sair sempre acontece mais feliz nas tardes enquanto as portas de ferro descem, as crianças debandam das escolas e os carros demoram mais a andar. As pessoas se olham aliviadas de tarefa cumprida, com um olhar de cumplicidade coletiva. Os cachorros latem mais, as crianças brincam mais alto, os pássaros voam baixo e os risos quebram a aparência do dia que prometia morrer sisudo. Aquele céu que vai se tornando laranja e obriga as luzes a acenderem gradativamente, anuncia a noite glamurosa de conversas na sala de estar, na mesa do bar ou na calçada dos vizinhos. É um momento único, o momento do movimento bom. Nunca gostei de ter compromissos nas tardes, a menos que no ápice da transição estivesse saindo, estivesse no fluxo do movimento ouvindo a trilha sonora inventada. Anoitecer dentro é o auge da depressão. O cair da tarde é vastidão, foi feito pra ser mergulhado e invadir as almas com uma dinâmica espera pelo melhor que só às vezes chega.
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