sexta-feira, 26 de março de 2010

Sobre a saudade

A saudade não precisa que algo tenha sido bom para existir. A saudade só precisa de um lembrete. Um perfume em terceiros, uma música ruim ou até mesmo um bilhete na geladeira para os saudosos mais desatentos.

Aquele par de sandálias erradas, ali, como se estivessem jogando a realidade na cara. Como se dissessem que rastros são inevitáveis e que a felicidade vai, mas seus objetos ficam. Ali um pé direito errado, azul quarenta e dois. Uma prova de você para que ninguém me convença que não houve.

Sobre a visão

A visão é estado de espírito. É mais do que físico. Na imensidão da luz do dia, mesmo em branco translúcido pode ocorrer confusão. Equívoco confiar na tradução do que percebe. Equivocou-se. E como se fosse claro, fácil e bonito, amou. Visão turva. Os olhos abriram-se firmes e a alegria pulverizada, delicadamente, rarefez toda aquela beleza. Logo viu nítido:viver poesia faz mal à vista, enquanto vive. Alucina. Então sua alma só pôde desejar uma cegueira permanente.

terça-feira, 16 de março de 2010

A breve história de uma formiga obcecada

Andou incansável desviando-se daqueles galhos desnudos que lhe atrapalhavam o caminho. Andava, andava, andava e nunca que chegava àqueles morros bonitos (que na verdade eram nuvens refletindo o sol que esvaecia). No percurso deixou de participar de uma festa, um recital, um jantar dançante e três funerais. Quando parou e percebeu que não importava o quanto andasse as montanhas bonitas ainda permaneceriam longe, apesar da vontade incontrolável de alcançá-las, sentou-se exausta e com olhar frustrado fitou tudo a sua volta. Viu-se num lugar completamente desconhecido repleto de vidas diferentes das de outrora e então se deu conta de que não pertencia mais – Não pertencia mais a que? – Se perguntou verdadeiramente confusa. E então percebeu que não tinha lembranças do caminho todo (que não era curto) nem sequer para ser capaz de percorrê-lo ao contrário, suas lembranças limitavam-se ao que quase atrapalhou a busca pelas montanhas. Lembrou-se da recusa irada de alguns convites que surgiram – Havia uma festa. Sim! E um recital... talvez alguns funerais. Mas quem se importa? Nem gosto de festas, acho que me causam enxaqueca. E recital? Nem era tão afinado assim o músico. Ah, funerais... qualquer um sentir-se-ia feliz por escapar deles. Mas quem será que morreu? – A cabeça começou a doer e notou que o coração batia num ritmo diferente. Por mais esforço que fizesse não se lembrava das coisas que se passaram nesses anos todos. Só lembrava-se da busca incessante que poderia ter tido sucesso, ou ao menos histórias no segundo plano. Agora era tudo o que tinha para embalar suas noites desaceleradas de velhice: a falta das montanhas nuvens e do caminho que não levou a elas.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Não fim

Ela surgiu violenta como quem vem, com pedras na mão, iniciar um diálogo e trouxe consigo uma escuridão serena. Seus olhos com uma profundidade estranha, que dominavam o ambiente e consumiam a pouca luz que parecia se refletir na epiderme clara, fitaram decididamente um canto da sala cujo belo design retrô permanecia oculto na penumbra. Assim que já não era foco dos olhares da multidão criada em sua mente para fazer a entrada parecer mais triunfal, arrumou a franja longa que o vento do caminhar apressado havia grudado nos lábios, ajoelhou-se encostando o ombro direito no sofá com um pudor charmoso, encostou os cílios superiores lambuzados de rímel nas olheiras já escuras para completar o visual deprimente que se formava inevitavelmente e começou a falar com palavras bem colocadas:

- E agora, como ficamos? Agora que perdi horas diante do dicionário caçando sinônimos fortes pra dizer tudo o que devia? Para traduzir o que a carne me corroia? Logo agora que deixei de ser eu e só?

Um longo intervalo de silêncio quase ensurdecedor permitiu que a moça umedecesse os lábios. E então prosseguiu, sem vacilar:

- E então o que me diz, não para que me console, mas para que me volte a cor da face? Seja no mínimo digno para ceder-me palavras e não permitir que só meu timbre viole esse vazio que se formou aqui. Espero com uma paciência limitada sua sugestão para o que será agora. Se é que será.

Um silêncio ainda mais agudo se espalhou durante alguns segundos.

- Não exijo nada de alguém que não possa exigir de mim mesma. Não exijo de você que tenha a solução, que continue sendo parte minha, apenas que não me mate com essa ausência inteira. Quero tudo por inteiro, menos isso. Não suporto que o fim seja assim frio, assim vácuo. Nem o frio da morte é frio, além da temperatura do corpo que morre. O que quero? – perguntou como se repetisse a fala de seu interlocutor – Quero um fim memorável, com calor, com toque, com franqueza e ponto final. E é só. É capaz disso?

Levantou-se com uma elegância que parecia ensaiada e esticando o braço alcançou o interruptor que fez a luz rara se triplicar num segundo. Enxugou o borrão preto debaixo dos olhos parecendo sentir pena de si, caminhou até o espelho do corredor e então se olhando nos olhos disse furiosa:

- Imbecil!

Recompôs-se e com a mesma elegância de sempre pegou a bolsa grande e saiu batendo a porta. Cumprimentou educadamente os conhecidos que passavam em seu caminho usando grandes óculos de sol para esconder a expressão desagradável que estava constituída após aquele breve e infinito monólogo na sala de estar. Seguiu em sua rotina com a face ruborizada de verão fingindo esquecer os textos arrebatadores que ensaiava nos dias mais inspirados para quebrar grilhões com histórias decadentes escritas até a metade. Mas aquilo era sempre tão bem guardado que não conseguia esquecer a falta do fim e ensaiava sempre uma conclusão mais coerente do que a outra. E sempre surgia um impulso de se bater na cara quando pensava nos ensaios nunca apresentados.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Um texto nostálgico

Naqueles dias de verão em que a vida parece dar piruetas, em que as pessoas parecem mais interessantes e em que os sonhos tomam a frente nas atitudes, naqueles dias achamos que somos os donos do mundo. Encaramos a vida como crianças que acabam de serem aceitas numa brincadeira de gente grande. Banhados de guache e embebidos numa euforia justificada agimos como os mais perfeitos e felizes idiotas. Acreditamos que tudo vai mudar, que num passe de mágica nos tornaremos grandes, fortes, intelectuais e descolados. Alguns passam a usar roupas rasgadas e a pintar cartazes com tinta barata numa tentativa nostálgica de viver os tempos poéticos da ditadura militar. Outros parecem continuar no colegial, disparando perguntas bobas, defendendo opiniões ingênuas e fazendo novos melhores amigos. Não julgo os revolucionários ricos de havaianas nem os reacionários oriundos de colégios públicos. Tudo não passa de um período conturbado até que o buraco realidade apareça devastador à frente do próximo passo. Em algum momento todos esses descobrem que apesar de seus sonhos bonitos, de suas convicções mais sinceras e de sua vontade de continuar acreditando naquilo que acreditava nos melhores dias de verão, terão que aceitar que a visão mais madura dos conhecimentos e da vida nem sempre é a mais desejável. Terão que desintegrar o grande grupo unido que no início caminhava de mãos dadas pelo campus, terão que levar os livros mais a sério e o pior de tudo: terão que admitir que aquela opinião que defendiam com tanta veemência estava equivocada e que aquilo que seus arquiinimigos diziam talvez realmente tivesse sentido. O verão que revela o resultado positivo do vestibular é para os nomes da lista o mais quente e arrebatador de todos os que sucederão. Não há sensação mais extasiante do que o momento de ingresso nesse mundo tão cheio de transformações. Sensação que com o passar dos anos tende a ser reduzida à uma esperança tímida que causa uma insônia, não mais envolvida por álcool e rock'n roll, mas banhada por um facho vindo da lâmpada amarela na cabeceira.