segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

São Paulo... ah a capital

A cada visita a São Paulo entendo mais, lamento mais os motivos dos afogamentos no lixo. São Paulo cidade cinza, cidade cheia... cheia de tudo. Cheia de eventos, de cultura, de diversidade, de gente, de lixo, de carros, de ruas, de arte, de falta de educação. Está pra nascer gente mais mal educada do que os habitantes daquela terra cinza. São Paulo gigante que engole, que massacra, que entorpece. São Paulo mais de fedores do que de aromas que me faz desejar o meio do mato. É um monstro que me puxa pela magnitude e que me espanta, pela magnitude. São Paulo faz com que eu me sinta dispensável. São Paulo mostra que ninguém é peça fundamental de nada e que o ser humano é uma bosta que embosteia o mundo achando que está fazendo grande coisa. Cada visita a São Paulo escancara verdades. Verdades fazem sofrer. São Paulo linda, mentira boa... ah a capital! Capital que estapeia as faces dos que veem com o coração.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Ainda a tarde

As tardes sempre me causaram um certo fascínio que cresce na medida em que o sol morre, espontâneo e nem sempre notado (o fascínio e o sol). É aquele período em que o movimento é diferente. Movimento de gente saindo rumo aonde nem sempre sabe. Penso que o sair de algum lugar seja um ato renovador, empolgante, alegre. Não importa o destino nem tão pouco o caminho, tudo o que importa é o ato de sair. Quando saímos criamos uma esperança discreta de acontecimentos inesperados, ainda que a rotina esteja garantida. Quando vemos pessoas saindo imaginamos o caminho e o destino delas. Que podem estar indo encontrar amigos num bar charmoso no Cambuí, esperar a carona do namorado para irem juntos escolher um filme qualquer ou simplesmente estar indo para casa que já tem aroma do alho com cebola e o barulhinho da panela de pressão. Esse movimento de sair sempre acontece mais feliz nas tardes enquanto as portas de ferro descem, as crianças debandam das escolas e os carros demoram mais a andar. As pessoas se olham aliviadas de tarefa cumprida, com um olhar de cumplicidade coletiva. Os cachorros latem mais, as crianças brincam mais alto, os pássaros voam baixo e os risos quebram a aparência do dia que prometia morrer sisudo. Aquele céu que vai se tornando laranja e obriga as luzes a acenderem gradativamente, anuncia a noite glamurosa de conversas na sala de estar, na mesa do bar ou na calçada dos vizinhos. É um momento único, o momento do movimento bom. Nunca gostei de ter compromissos nas tardes, a menos que no ápice da transição estivesse saindo, estivesse no fluxo do movimento ouvindo a trilha sonora inventada. Anoitecer dentro é o auge da depressão. O cair da tarde é vastidão, foi feito pra ser mergulhado e invadir as almas com uma dinâmica espera pelo melhor que só às vezes chega.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Uma tarde azul

Enquanto mil e uma informações correm pelos cabeamentos, lá fora ainda existe. Perseguem-se uns aos outros dentro da rede infinita e lê-se aventuras e inutilidades de quem às vezes nem sabe quem. Indo no sentido da água corrente descobre-se que o mundo é pequeno, descobrem-se semelhanças, percebe-se os outros de forma duvidosa e formam-se laços quase desejáveis. Horas e horas sem notar. Alguns muitos gigabytes são trocados como figurinhas. Enquanto isso lá fora ainda há, por entre a fresta da janela que não se abre muito para não refletir luz no cristal, as coisas palpáveis ou não palpáveis mas que de qualquer forma não chegam por troca de dados. Há lá fora aquelas coisas que são bonitas e já manjadas pelos poetas como os pássaros cantando e as nuvens passeando pelo céu da tarde azul. Já é tarde e foi-se a tarde que não vi.