sexta-feira, 14 de maio de 2010

Cachecol e manteiga de cacau

Em uma manhã tardia em que, como todas as de inverno, o sol já devia aquecer as almas, saiu pela cidade suja. Aquele som urbano emudecido pela trilha sonora triste dos fones de ouvido só a fazia ser menos parte do mundo. Para não ser alcançada pelo mundo do qual queria fugir andava depressa, embora não estivesse atrasada, sem, contudo, deixar de notar o ar frio que lhe cortava a face. Era deslocada, mas a epiderme amarrava-a impiedosamente a tudo aquilo que não a acolhia.
Uma batalha quase ganha pela vontade de não estar. Escorregou dos sons de realidade, escapuliu das cores de gente com a ajuda dos óculos escuros e do olhar perdido no horizonte inexistente, esquivou-se dos odores vivos devido à coriza, mas não fugiu da frieza seca de todo o entorno. A difícil tarefa de ser impunha-se a cada passo e a cada informação pedida por estranhos na rua. Aparecia no toque involuntário na mão do cobrador do ônibus enquanto entregava-lhe as moedas, na trombada da criança alegre contra suas pernas e na espera velada pelo telefonema que não vinha. Sobretudo aparecia no maldito ar frio que lhe cortava a face. Aquele ar que mudava o humor e trazia pensamentos indesejados. Essa foi a batalha quase ganha. Quase.
Naquele percurso na manhã tardia, clara e gélida, finalmente percebeu. Sua pele ressecada e áspera não permitia que escorregasse da tarefa fatídica. Então sem achar melhor maneira de aquecer a pele e umedecer os lábios calados, contornou o pescoço com mais uma volta de cachecol, sacou do bolso do casaco um bastão de manteiga de cacau e espalhou cuidadosamente na boca bem contornada e repleta de ranhuras. E seguiu mais alguns metros até chegar ao lugar que adiara sua vontade de desistir de ser.